Terça-feira - 20 de outubro de 2026
Memória e direitos humanos
Ciclo de Palestras do ASUFPel aborda repressão na UFPel durante a ditadura militar
Pesquisadoras da Comissão Universitária da Verdade apresentaram documentos e episódios de vigilância, prisões e perseguição à comunidade acadêmica
A atuação dos órgãos de repressão durante a ditadura militar e seus reflexos na história da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) foram tema da 10ª edição do Ciclo de Palestras do ASUFPel, realizada na sexta-feira (16), na sede do Sindicato. O encontro contou com a participação de Natasha Dias Castelli e Nádia Coelho Kendzerski, doutorandas em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFPel e pesquisadoras da Comissão Universitária da Verdade (CUV).
Com o tema “O trabalho da Comissão Universitária da Verdade: rastreando vestígios da repressão na UFPel durante a ditadura militar”, as palestrantes apresentaram resultados de uma investigação documental que busca identificar como o aparato repressivo atuou nas instituições de ensino superior, e, posteriormente, dentro da própria UFPel.
A pesquisa reúne documentos encontrados em unidades acadêmicas, arquivos institucionais, registros do Arquivo Nacional e edições do jornal Diário Popular publicadas entre 1964 e 1985. Segundo as pesquisadoras, mais de mil documentos já foram examinados, além dos materiais preservados nos acervos da Universidade.
Entre os episódios apresentados esteve o cerco ao campus Capão do Leão, em 1964, quando servidores e estudantes foram presos sob suspeitas de envolvimento com grupos considerados subversivos pelo regime, isto é, qualquer grupo que se opunha à ditadura . Outro caso abordado foi o da turma de Agronomia de 1968, impedida de realizar sua formatura após a escolha de Juscelino Kubitschek, ex presidente, ligado ao campo democrático e progressita, para ser o patrono dos formandos. Os estudantes receberam uma cerimônia simbólica apenas em 2018, cinco décadas depois.
As pesquisadoras também detalharam a existência de mecanismos de vigilância sobre professores/as, estudantes e Técnico-Administrativos/as em Educação. Documentos produzidos por órgãos de informação e segurança registram investigações, fichamentos, prisões e afastamentos, além da atuação de uma estrutura de controle ideológico dentro da Universidade.
A obrigatoriedade de disciplinas como Estudos de Problemas Brasileiros e Educação Moral e Cívica também foi discutida como parte das medidas adotadas pelo regime para interferir na formação acadêmica.
Outro ponto da apresentação foi a origem da Comissão Universitária da Verdade, relacionada ao processo de revisão de títulos de Doutor Honoris Causa concedidos pela UFPel a autoridades da ditadura, entre elas Emílio Garrastazu Médici e Jarbas Passarinho.
Promovida pela pasta de Formação Política e Sindical do ASUFPel, coordenada por Daniel Berbare e Solange Tonietto, a atividade trouxe ao debate documentos que ajudam a compreender a história da instituição e as consequências da repressão sobre sua comunidade acadêmica.
O trabalho da Comissão Universitária da Verdade segue em andamento, com a análise de novos acervos e a previsão de aprofundamento dos casos identificados. Parte dessa documentação ainda está sendo examinada pelas pesquisadoras, que também pretendem ampliar a investigação por meio de entrevistas, com previsão de entrega do relatório final em abril de 2027.
ASUFPel 47 Anos - Uma História de Lutas